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Pânico Amarelo

Manchetes recorrentes nos jornais brasileiros em janeiro tratam de enchentes, inundações, deslizamentos com desabamentos e apenas alguns meses após, o antagonismo é expresso sob a forma de racionamentos de energia e apagões por falta de chuvas, com consequente baixo nível de água nos reservatórios das hidroelétricas.

Há alguns anos, o período de chuvas e calor em nosso país virou sinônimo de explosão nos casos de arboviroses, viroses transmitidas por animais ou insetos, com a dengue figurando como a grande representante nos últimos anos.

A vedete desse ano, febre amarela, já mostrou suas credenciais em 2017 em um surto com repercussão mundial e apesar de nosso ministro da saúde, Ricardo Barros, ter dado uma declaração em junho de 2017 (veja aqui) que a situação estava totalmente sob controle, a moléstia já vem ocupando espaço nos principais meios de comunicação, nas conversas de boteco e promovendo uma corrida desenfreada aos postos de saúde em busca de uma dose, mesmo que fracionada, da vacina.

Quem é a febre amarela?

Trata-se de uma doença transmitida habitualmente pelo Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue, e que apresenta sintomas iniciais inespecíficos como mal estar, dor de cabeça, mialgia (dor muscular), náuseas/vômitos, irritabilidade e febre. A maior parte dos casos são auto-limitados e acabam não sendo notificados, já que o diagnóstico etiológico específico não é firmado devido a essa inerente inespecificidade.

Aqueles que geram manchetes de jornais são os quadros graves, que tendem a evoluir mal, com falência de múltiplos órgãos e alta letalidade.

Destaques jornalísticos dos últimos dias:

Mortes por febre amarela crescem cinco vezes em uma semana;

Senhas para vacinação contra febre amarela geram confusão em UBS de Itaquaquecetuba;

Rio Claro: Fila nos postos para tomar vacina da febre amarela começa de madrugada

Presidente da Rede Minas morre aos 49 anos vítima de febre amarela

Pois é… vamos analisar os números epidemiológicos oficiais à luz da ciência e opinarmos se o pânico é justificado.

Vou exemplificar com os dados mineiros oficiais:

“No período de monitoramento 2016/2017 (julho/2016 a junho/2017) foram registrados 475 casos confirmados de febre amarela no estado de Minas Gerais, sendo que destes, 162 evoluíram para óbito. O último caso confirmado teve início dos sintomas no dia 09 de junho de 2017.

Desde o início do 2º período de monitoramento da Febre Amarela (julho/2017 a junho/2018), foram confirmados 22 (vinte e dois) casos de Febre Amarela em Minas Gerais, destes casos, 15 evoluíram para óbito e outros 46 casos continuam em investigação.”

Após esses primeiros dados vou destacar dois conceitos: incidência, que diz respeito ao número de novos casos diagnosticados em determinado período de tempo em uma população específica e a letalidade(mortalidade) que analisa o percentual de óbitos entre aqueles com diagnóstico confirmado.

No caso mineiro em questão, estado posicionado entre os de pior cenário no Brasil, temos essa análise numérica:

Considerando a população mineira atual na ordem de 21 milhões de pessoas, a incidência nos últimos meses foi de aproximadamente 1 caso para cada 1.000.000 de pessoas.

A letalidade por febre amarela em Minas Gerais no período de 2017/2018 é de aproximadamente 68% (15 mortes entre 22 casos confirmados).

Atualmente, a cobertura vacinal acumulada de febre amarela em Minas Gerais está em torno de 82%. Até o momento, não há relato de vacinação para a a doença entre os casos confirmados, mostrando uma boa eficácia da imunização em reduzir a chance de quadros graves e potencialmente fatais.

Analisando friamente os números atuais, trata-se de patologia com baixísssima incidência e alta letalidade, quando falamos de casos com diagnóstico confirmado.

Criaram, como é comum em nosso país, um pânico olhando apenas um lado da balança: mortes. Não me entendam mal! Não estou querendo minimizar a catástrofe da perda de uma vida, ainda mais tratando-se de uma doença potencialmente previnível que já deveria ter sido erradicada de nosso país; contudo, não adianta esse caos pontual.

Milhares de pessoas morrem no Brasil em função de doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, pressão alta, obesidade), acidentes automobilísticos, violência urbana e seguimos com mais risco de morrer de tuberculose (taxa de mortalidade média dos últimos anos ficou em torno de 3,5 casos para 1.000.000 de habitantes) do que de febre amarela.

Entender conceitos relativos a números nos torna bem mais críticos e conscientes da necessidade de esforços para salvarmos o maior número de vidas possível.

Sobre a vacinação: FUNDAMENTAL! Afinal de contas, a febre amarela não tem nenhum tratamento específico e o melhor remédio, nesse caso, definitivamente é a prevenção. Obviamente não devem ser imunizadas pessoas com alguma contra-indicação, como alergia a algum componente da vacina ou baixa imunidade, quando o risco pode ser superior ao potencial benefício. Essa análise deve ser feita por um profissional médico devidamente capacitado.

A dose fracionada, que vem sendo utilizada em alguns estados, foi testada em ECR conduzido pela Bio Manguinhos e apesar de não ser ideal, pode ser utilizada em situações emergenciais com perspectiva de efetividade similar à dose padrão por um período de 8 anos em jovens saudáveis.

Acredito que a cultura nacional de apagar incêndios ao invés de evitar seu acontecimento é exponencialmente elevada em um cenário político que visa a perpetuação no poder prioritariamente à solução das reais mazelas nacionais. É preciso implementar, no caso da febre amarela, campanhas de vacinação durante todo o ano visando uma cobertura que minimize ao máximo a chance de surtos sazonais e que busque a erradicação completa desse pânico amarelo.

COMENTÁRIOS
  • Carlos zeitoune
    22 de Janeiro de 2018

    Muito Obrigado pelos esclarecimentos, sempre muito úteis, doutor josé neto!

    responder
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