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Jornal Nacional, Rede Globo em 28/11/2017

Há cerca de 1 ano decidi reduzir meu tempo diante da TV. Assim, programas jornalísticos acabaram saindo da minha rotina diária. Impressionante como isso fez bem em termos de otimização do uso do meu tempo e agregou em bem estar no meu dia a dia.

Apesar disso, mesmo sem assisti-los, algumas matérias são gatilhos que fazem minhas redes sociais apitarem como uma Maria Fumaça enfurecida.

Ontem foram veiculadas duas reportagens sequenciais no Jornal Nacional que promoveram um tsunami de mensagens em meu celular.

Você viu ? Gordura saturada ataca os neurônios da saciedade. Pesquisa da UNICAMP com Cambridge!!!! Até quando a falácia da autoridade continuará a reinar ?

Seria um grande ensaio clínico randomizado com humanos onde um grupo comeria um teor maior de gordura saturada e teve desfechos negativos? Sem contar que, tratando-se de uma alteração em neurônios, seria um desfecho substituto; afinal, o clínico seria, como tratamos de neurônios da saciedade, os pacientes ficarem mais ou menos gordos!

Não!!!!! A reportagem, veiculada em horário nobre, referia-se a um estudo em roedores. E toda a conclusão considera que, as alterações encontradas nos neurônios dos ratinhos, reflitam uma realidade no ser humano. Ok! Aceito que o achado seja uma hipótese, MAS

Já não bastam os quase 60 ECRs (www.phcuk.org/rcts) mostrando que a dieta mais rica em gordura emagrece mais que a pobre nesse macronutriente? Já não basta uma revisão sistemática com mais de 100.000 pacientes provenientes de ECRs que inocentam a gordura SATURADA (Ann Intern Med. 2014;160(6)398-406)? Já não basta o maior estudo observacional sobre o tema mostrar falta de associação das gorduras com risco cardiovascular e uma relação inversa entre o consumo de gordura SATURADA e o risco de AVCs?(The Lancet. V.390, N.10107, nov 2017).

Parece que não. Basta uma reportagem inconsequente, em um veículo jornalístico de alta penetração nacional, para causar esse alvoroço e manter o pensamento mágico a respeito do tema.

Para fechar com chave de ouro, após a pesquisa dos ratos, seguiu-se uma pérola da âncora do JN relacionando o sedentarismo ao processo de obesidade.

Meu amigo e educador físico, Rafael Lund, com quem palestro frequentemente,  tem uma apresentação onde ele passa 90 minutos mostrando evidências sem fim que a atividade física, apesar dos incontáveis benefícios para a saúde, não é uma ferramenta protagonista para tratar a obesidade (veja um exemplo). Infelizmente, vale mais o sofismático senso comum, que remete à teoria do balanço calórico onde o coma menos e gaste mais vira explicação causal para uma epidemia que parece não ter fim.

Se nomes como Gary Taubes, Nina Teicholz e Olavo Amaral devem encher de orgulho a classe jornalística, bizarrices como essas deveriam ser usadas como exemplo de jornalismo leviano e imprudente.

A comunidade está, com razão, em alvoroço! Não! Não é a nossa comunidade, que está mais uma vez latindo para árvore errada. A preocupação é dos roedores, afinal Rémy, o ratinho gourmet, meio frânces, meio mineiro, do fantástico Ratatouille da Disney, chegou com a informação que eles terão de reduzir o consumo de queijo!!!!

Fique tranquilo Rémy, esse estudo não foi um ECR; ou seja, ele é incapaz de inferir causalidade, só associação.

COMENTÁRIOS
  • carlos zeitoune
    1 de dezembro de 2017

    Penso que a informação baseada em evidências científicas deve incomodar , e muito, as indústrias alimentícia e farmacêutica e, para se contrapor a isso, textos como os seus são essenciais para os leigos que suspeitam que as coisas não são exatamente como a mass media tenta nos fazer crer com “reportagens e documentários” de baixo nível e tendenciosos. parabéns, doutor!

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