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Série: Uma árvore chamada Síndrome Metabólica – Parte 1

1. MUITO PRAZER, SÍNDROME METABÓLICA!

Em 1988, um respeitado professor da Universidade de Stanford, Dr. Gerald Reaven, proferiu uma palestra histórica no evento Banting Lecture (organizado periodicamente pela ADA – American Diabetes Association) sumarizada em uma bela publicação.(Reaven G., Diabetes, V.37, Dec. 1998).

Em sua exposição ele propõe a criação de um termo que retratava uma constelação de sintomas e alterações laboratoriais que teriam em comum o fenômeno da resistência insulínica com hiperinsulinemia compensatória.

Apesar da sugestão da causa etiológica, o Dr. Reaven adotou uma postura própria de um homem da ciência e a intitulou síndrome X, por não ter certeza entre causa e efeito.

Abaixo os critérios apresentados como presentes na dita cuja conforme o artigo original.

SÍNDROME X

Resistência à insulina

Intolerância à glicose

Hiperinsulinemia

Aumento de triglicerídeos

Redução na fração HDL do colesterol

Aumento da pressão arterial

 

E qual o motivo para se precoupar com isso? Simples! Haveria a possibilidade de uma enorme importância na gênese da doença cardíaca, que lidera várias estatísticas como a principal causa de morte no globo ainda nos dias atuais. (http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs317/en/)

 

SOBRE RESISTÊNCIA E NOSSO ORGANISMO

Esse fenômeno da resistência é bastante frequente em sistemas biológicos, a despeito da exposição estar ou não relacionada aos hormônios.

Drogas lícitas ou não, vacinação e uso abusivo de antibióticos exemplificam essa situação. É o fenômeno da resistência atuando para o bem e para o mal. Vejam o exemplo abaixo para entender melhor como isso funciona na prática.

Um usuário crônico de bebida alcoólica, em quantidade elevada e crescente, desenvolve resistência à ação dessa substância e necessita de doses cada mais maiores para conseguir os mesmos efeitos de outrora. Isso tem um limite não mensurável e o pagamento da conta pode ter um preço alto; onde no caso do álcool, o fígado tende a ser a vítima principal.

A insulina é um hormônio tradicionalmente conhecido por abrir a porta da célula para entrada da glicose. Apesar dessa ser sua função mais conhecida, ela é protagonista em outros tecidos promovendo retenção de sal e água nos rins, inibição da lipólise (queima da gordura) no tecido adiposo e promotora de síntese de gordura no fígado.

Imagine tudo isso maximizado sob a forma de insulina alta retroalimentada pela resistência à sua ação? Do ponto de vista mecanístico, com todas suas limitações frente à realidade, as peças do quebra cabeça vão se encaixando perfeitamente e explicam alterações da glicose, pressão arterial elevada, obesidade e dislipidemia.

SÍNDROME METABÓLICA: MUITO MAIS DO QUE ALGO ACADÊMICO

Após alguns anos, a síndrome X acabou ganhando alguns codinomes como quarteto mortal, mas ganhou força a designação mais conhecida atualmente: síndrome metabólica.

Existe mais de uma definição, contudo a mais aceita e utilizada é do NCEP-ATP III (Lancet. 2005;366(949):1059).

São contemplados alteração na glicose, pressão arterial, peso (2 marcadores distintos sendo positivo se algum deles estiver presente) e lípides (2 critérios distintos: HDL e triglicérides). O diagnóstico é firmado na presença de 3 dos 5 critérios. Caso algum desses esteja controlado às custas de uso de medicação, a leitura é de positividade no critério. Ex: Glicemia de jejum:92 mgdl em uso de um hipoglicemiante ou PA:120×80 mmHg às custas de qualquer antihipertensivo.

E qual a importância de saber se você tem síndrome metabólica? Sim!!!!! Parece que o Dr. Reaven tinha razão nas suas ponderações. Há uma associação entre eventos cardiovasculares, como infarto (3,6x mais), e de MORTE (2,4x mais), tendo como exemplo essa coorte de homens que iniciaram o acompanhamento sem doenças pré existentes e desenvolveram critérios de síndrome metabólica durante sua evolução. (JAMA, Dec 4, 2002 – V. 288, N. 21)

Se não bastassem as alterações que fazem parte dos critérios clássicos da síndrome metabólica, já existem evidências de patologias que florescem tendo a resistência insulínica no mínimo como pano de fundo. Esteatose hepática não alcoólica (gordura no fígado), síndrome dos ovários policísticos, apnéia obstrutiva do sono, Alzheimer e disfunções sexuais entram nessa lista.

Existe alguma discussão na literatura se a fisiopatologia seria única para justificar o nome síndrome metabólica. Seria o risco inerente de ter a síndrome maior do que dos seus componentes isolados? Sinceramente me parece uma discussão acadêmica, para não dizer bizantina; afinal, independente dos mecanismos, a realidade é que as pessoas estão morrendo ou tendo complicações graves desse espectro de patologias que certamente tem na hiperinsulinemia crônica com resistência insulínica um nítido protagonismo.

E o tratamento?  Hoje é prioritariamente direcionado para os galhos da árvore com base nas principais diretrizes e com consequente massificação nos consultórios, onde remédios individuais são prescritos para cada uma das várias apresentações fenotípicas da resistência insulínica. Dê uma droga para o diabetes, outra para o colesterol, uma terceira para a pressão e assim vai, empurrando-se a sujeira para debaixo do tapete e pagando-se o preço dos possíveis efeitos colaterais de cada tratamento instituído.

A evolução, habitualmente inexorável e perversa, determina complicações que acabam sendo tratadas de forma reparadora com diálise, cirurgias e mais medicações.

Considerando-se que o mecanismo principal responsável pela raiz do problema é a HIPERINSULINEMIA CRÔNICA com resultante RESISTÊNCIA INSULÍNICA, não seria mais inteligente tratar primariamente essa causa?

Fobia da gordura com aumento reativo no consumo de carboidratos e maior frequência alimentar com refeições a cada 3 horas são pilares das orientações nutricionais das últimas décadas que apresentam como marcos as Diretirizes Nutricionais para povo americano proposta pela Comissão McGovern em 1977 e a pirâmide alimentar de 1992.

Houve uma nítida alteração do padrão alimentar da população mundial nos últimos 50 anos com explosão na prevalência de obesos, diabéticos e hipertensos. Coincidência ou causa ? Uma coisa é fato: essa mudança definitivamente não trouxe os benefícios propostos de mais saúde às pessoas. Se quiser mais detalhes veja esse post.

Se não bastasse a hecatombe causada por essa mudança, é revoltante descobrir que tudo isso foi feito baseado em achismos pseudocientíficos, interesses políticos e financeiros escusos e para fechar, com requintes de crueldade, a vítima dos males dessa síndrome é culpada por ter chegado naquela situação extrema em função de preguiça, gula e indisciplina. Toda essa história, digna de roteiro hollywoodiano, é contata com maestria pela jornalista Nina Teicholz no seu livro, The big fat surprise, que já tem tradução para o português e foi entitulado Gordura sem medo. Imperdível essa leitura para os interessados no assunto.

Passou da hora da máscara cair, aceitar-se os erros grotescos cometidos com milhões nos últimos anos e promover mudanças de hábitos de vida de maneira científica, factível e perene.

Nesse contexto, a dieta de baixo teor de carboidratos (low carb), baseada em comida de verdade, deve ser veiculada sem a mística negativa e sim como uma opção válida, efetiva, segura e barata no tratamento da síndrome metabólica. Para uma revisão completa dos ECRs disponíveis visite o site da Public Health Collaboration, ONG britânica que faz um trabalho brilhante.

Atividade física, sono adequado e saúde mental equilibrada são pilares importantes na busca pela saúde e não devem ser menosprezados nesse contexto.

É assustadora a cegueira coletiva da qual, um dia, admito ter feito parte!  Remédios e terapêuticas modernas têm seu lugar, devem ser utilizados com sabedoria, mas não adianta tratar isoladamente os galhos. O mal deve ser tratado pela raiz!

Em breve dissecarei algumas das patologias estreitamente correlacionadas com a resistência insulínica.

COMENTÁRIOS
  • carlos
    10 de novembro de 2017

    Texto exemplar, conciso e compreensivo! vou compartilhar entre os meu contatos.
    Muito obrigado, doutor!!

    responder
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