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PAPAI NOEL, CIÊNCIAS DA SAÚDE E AS EVIDÊNCIAS

Papai Noel existe?

Essa ingênua pergunta ganha uma conotação diferente, da que permeia toda mágica que envolve essa figura, quando fazemos a análise à luz da ciência.

Qualquer indivíduo, seja pesquisador ou usuário da literatura científica, deveria cultivar o ceticismo no cotidiano para analisar criticamente seus achados, crenças e condutas decorrentes.

A idéia do sempre fiz assim, as diretrizes orientam isso ou todos fazem desse jeito, são posturas que refletem uma submissão que definitivamente não combina com a gnose verdadeira. Honradez em aceitar equívocos e mudar, tendo consciência do caráter dinâmico na esfera científica são imprescindíveis em um bom profissional. Parafraseando o escritor francês Anatole France, se bilhões de pessoas acreditam em uma coisa estúpida, essa coisa continua sendo estúpida.  A história está repleta de situações que encaixam como uma luva nessa assertiva. Não ache que são apenas as sanguessugas do passado. Elas têm seus representantes contemporâneos.

A força de uma evidência deve ser alicerçada sobre o paradigma da hipótese nula. Um evento não deve ser considerado verdadeiro antes de sua verificação. Essa veracidade é questionada justamente por esse princípio. Assim, se após um experimento bem delineado, a hipótese é refutada, somos direcionados a acreditar na existência daquele dito fenômeno (hipótese alternativa).  O ônus da prova está na existência do fenômeno. É o hipocrático primum non nocere (primeiro não lesar) dos tempos modernos.

Está confuso? Explico melhor… olhem o caso do Papai Noel.

Intuitivamente aceitamos a hipótese nula quando partimos do pressuposto que o bom velhinho não existe; afinal de contas, excluindo-se as crianças, sabemos muito bem de onde vem os presentes que aparecem junto aos sapatinhos na manhã do dia 25/12, né? Sob um prisma científico ele só existiria após refutar-se a hipótese nula,  buscada com obstinação, apesar do insucesso, durante toda minha infância.

Por mais paradoxal que possa parecer, não nos comportamos assim em inúmeras situações relacionadas às ciências da saúde. Uma história bem contada repleta de renas, anões e brinquedos construídos no Pólo Norte são suficientes para violarmos esse princípio fundamental da ciência e passarmos a acreditar indubitavelmente na existência do Papai Noel. Teorias mirabolantes surgem para explicar como ele consegue cumprir o famoso refrão: “seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem” e a ilusão vira verdade absoluta e inquestionável.

Novas drogas com mecanismos complexos e com encaixe “perfeito” na plausibilidade biológica fazem milhões para a indústria farmacêutica, que com a sublime arte dos contadores de história, envia seus representantes com sacos cheios de presentes visitarem os crédulos profissionais.

Reposição hormonal para prevenção cardiovascular (WHI Trial, N Engl J Med 2003; 349:423) na década de 90 e bem recentemente a angioplastia com stent em pacientes com angina estável (Orbita Trial, Lancet, nov/17) são alguns exemplos de terapêuticas incluídas de forma massificada na prática clínica sem se refutar a hipótese nula. Nada como o tempo e ensaios clínicos randomizados para desmascarem falsas verdades ilusórias.

O futuro promove o desencanto de forma aritmética da massa quando as reais evidências são apresentadas. É incrível como criar uma crença e cresce-la de forma exponencial, é bem mais fácil do que desmenti-la.

Apesar dessas antigas lendas serem aos poucos relegadas (quando cofres alheios já estão cheios), logo aparecem novas narrativas mágicas com a mesma celeridade de uma ninhada de coelhos.

Vocês não se decidem! Ciência muda mais do que eu troco de roupa ou o Fabio Jr. troca de esposa. Já ouviu algo do tipo? É claro! Se aceitarmos refutar a hipótese nula sob o pretexto de qualquer historinha bem contada (e as vezes nem tanto), caímos na armadilha de ver um alimento como o ovo oscilar da excomunhão à canonização num simples piscar de olhos. Não é infrequente o culto a medicamentos e procedimentos invasivos em um protótipo altar da ciência que não deveria ter qualquer ligação com religião.

Cachorros raivosos ladram de forma veemente quando veem o castelo de cartas ruindo e seguem sem entender ou, pelo menos fingindo, que para algo ser aceito, as provas devem ser de sua eficácia e não da sua ineficácia para que deixe de ser adotado. A retórica deveria ser de comprovar que uma conduta terapêutica seria benéfica antes de entrar no mercado e não provar que ela lesa para aí sim retirá-la. Percebem a inversão de valores que estamos vivendo?

Isso deveria servir também para “novos alimentos”, como óleos vegetais industrializados (soja, canola, milho), que foram incluídos na alimentação humana há menos de um século e ocupam o espaço de gorduras naturais (manteiga, banha de porco) baseado em desfechos substitutos (colesterol) ao invés de buscar os clínicos ( mortes, infartos). É o desprezo pela hipótese nula! Veja aqui e aqui.

Alguns anos atrás, com uma síndrome metabólica instalada, me disseram: não é a gordura! São os carboidratos!!! A fé quis prevalecer, mas liguei o botão do ceticismo e partindo do paradigma evolutivo, entre muitas dúvidas, me perguntei: seria a gordura alimentar uma vilã da saúde? Ela sempre fez parte da alimentação durante a evolução da raça humana. Haveriam dados para refutar a hipótese nula?

Após ampla revisão conclui que essa pode ser considerada, na minha humilde opinião, um dos erros mais crassos da história em refutar erroneamente a hipótese nula. Depois dessa constatação pude sair da Matrix em que a nutrição está envolvida.

Comer de 3/3 horas para não desacelerar o metabolismo, ingerir pouca gordura principalmente sob a forma saturada, dar preferência por óleos vegetais industrializados  em detrimento de gorduras naturais e estímulo ao consumo de grãos integrais para otimizar a saúde são lendas que seguem seduzindo milhões de leigos e profissionais ao redor do mundo.

Sua diferença da lenda natalina? Essa tem um efeito que até pode ser placebo, mas positivo na promoção de alegria e união com, quiçá, dolo mínimo aos nossos crentes herdeiros, que possam não ganhar o sonhado presente.

Minha luta diária? Trabalho árduo, dia após dia, para que a geração dos meus filhos consiga alcançar a maioridade ciente de que não é apenas Papai Noel que não existe.

Sinceramente gostaria de refutar a hipótese nula e provar a existência do bom velhinho. Apesar da ínfima chance de sucesso, posso optar por acreditar na sua existência; afinal, a vida não é feita só de ciência e a fé é a grande matriarca do Natal.

Que o clima natalino possa iluminar com uma aura do bem os lares de todos vocês e que a fé no menino Jesus possa ser um combustível para vivermos cada vez com mais intensidade e plenitude, cultivando princípios de amor, esperança, paz e culto à família.

Feliz Natal!!!

COMENTÁRIOS
  • Eny Maria delbem
    24 de dezembro de 2017

    Gosto e respeito tudo que o senhor escreve.
    Graças a sua palestra é que encontrei e estou CAMINHANDO pela Low Carb.
    Ainda cometo alguns errinhos…..mas estou firme em uma mudança definitiva.
    Um Natal com muitas alegrias para o senhor e sua família, com o meu abraço e meu muito obrigada!

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