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O vinho baseado em evidências

Adquiri nos últimos anos o hábito diário de tomar 1 a 2 taças de vinho na hora do jantar e vejo alguns incrédulos olharem para essa prática como algo inconcebível para alguém, que como eu, defende a saúde plena.

Pois bem… Adoro discutir temas polêmicos sob o prisma da medicina baseada em evidências (MBE). Isso alimenta o ceticismo científico e aumenta as chances de chegarmos mais perto da verdade.

Nesse caso precisamos sedimentar o conceito de desenho de estudo. Basicamente são dois tipos: observacional/epidemiológico e ensaios clínicos randomizados (ECR). A diferença fundamental é que o primeiro é um gerador de hipóteses, sendo capaz de demonstrar apenas associação e não causalidade; enquanto os ECR, quando positivos, permitem a inferência causal.

Percebam que apesar da aparente similaridade, a diferença é abissal. Vou exemplificar com uma situação fora do contexto de saúde. No ENEM, as notas dos alunos brancos é amplamente superior à dos negros. Se considerarmos algo causal, diríamos que a raça branca, no modelo hitleriano, seria superior à negra, mas a questão é que existe apenas ASSOCIAÇÃO, e a CAUSA oculta está ligada à desigualdade social.

A literatura médica, com o mote no uso do álcool pelo ser humano, está repleta de artigos observacionais e ECRs com tempo curto de observação e utilizando desfechos substitutivos (medir por exemplo alteração de um exame em detrimento de algo clínico como morte).

Ambos tem suas potenciais falhas, mas a despeito disso, precisamos definir à luz da melhor evidência.

Conceitualmente, apesar de existirem várias definições, de modo geral, para ser considerado um usuário moderado de álcool, a dose diária não deveria ultrapassar duas para homens e uma para mulheres (no caso do vinho uma dose é igual a 150ml). Obviamente esse valor que é considerado seguro para a maioria dos adultos, deixa de valer em casos específicos como, por exemplo, gravidez e história familiar de cirrose ou câncer de mama, onde existe um risco aumentado de complicações relacionadas ao uso do álcool.

O álcool representa um paradoxo para o médico, estando associado em situações de abuso com aumento da mortalidade e doenças como cirrose e problemas cardíacos.

O consumo moderado, de maneira oposta, está associada com redução do risco relativo de morte em geral (10 a 30%) quando compara-se usuários moderados x abstêmios (Arch Intern Med. 2006; 166(22):2437).

Paradoxalmente ao que muitos acreditam, o uso ocasional de doses mais altas (acima de 4 doses) é potencialmente mais maléfico do que o uso diário em doses moderadas; ou seja, aquele papo de não beber em dias úteis e encher o caneco no fim de semana não tem nada de seguro. Não existe esse balanço matemático de poupar durante a semana para se esbaldar nos dias de descanso.

Especificamente quando se trata do néctar de Baco, vejo muitos especialistas defenderem o consumo do vinho baseado na presença, em sua composição, de algumas substâncias relacionadas a um possível efeito benéfico à saúde, sendo o resveratrol o ator principal. Apesar disso, a dose necessária para atingir esse possível benefício, que deriva de estudos experimentais (com cobaias), é infinitamente maior do que aquilo que está presente em 1-2 cálices diários, representando cerca de 1000 L de vinho tinto por dia.

O embasamento para dar segurança ao uso moderado do álcool, não é devido à presença de uma substância específica em um tipo de bebida ou à sua possível contribuição direta na redução do risco de morte devido à associação existente. O ponto mais significativo é NÃO haver um aumento desse risco. Estudos observacionais não são capazes de gerar causalidade (lembra?), mas é impossível que ela exista se não houver inicialmente uma associação.

Tenho um momento diário de sentar-se à mesa para jantar com minha esposa, colocar a conversa em dia, relaxar e dormir mais feliz! Não consigo afirmar que o vinho diminui nosso risco de morte, mas à luz da evidência atual, consigo assegurar que ele não aumenta. Isso já é o suficiente para manter nosso hábito familiar diário, acreditando que ele é seguro, saboroso e saudável .

Um brinde a todos vocês!

Em tempo: para os xiitas de plantão, uma dose de vinho tinto seco tem, em média, 3g de carboidratos; ou seja, encaixa-se como uma luva em dietas com baixo teor de carboidratos.

 

COMENTÁRIOS
  • Carlos Zeitoune
    28 de setembro de 2017

    Sou adepto do vinho tinto também, mas bebo de quarta-feira a domingo, SEM motivo específico, TAlvez ligado à uma certa implicância INEXPLICÁVEL COM a seguNDA e terça-feiras, vai entender…

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  • 29 de setembro de 2017

    parece que leu meu pensamento. Estava pensando sobre isso a semana inteira!!!
    VINHO TINTO É A MINHA PERDIÇÃO DO BEM. NÃO FICO SEM!
    CONFESSO QUE ESTAVA ME SENTINDO UM POUCO CULPADA DEPOIS QUE vi um vídeo, DE UM PROFISSIONAL DA SAÚDE DE BASTANTE RENOME NO BRASIL, DIZENDO QUE BEBER VINHO TODOS OS DIAS NÃO FAZ BEM À SAÚDE.
    ESTAVA BUSCANDO EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS DE QUALIDADE PARA CONFIRMAR ESSA AFIRMAÇÃO. EIS QUE ENCONTRO AQUI!
    Depois dessE SEU ARTIGO, a satisfação, o bem-estar e os momentos especiais que O VINHO me proporciona serão inúmeras vezes multiplicados!

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  • Pedro Schütz
    1 de outubro de 2017

    Me parece que em relação ao consumo de vinho, somente a quantidade seria 50% das questões a serem observadas.
    Os outros 50% seria a qualidade da bebida.
    Infelizmente, nem todos os vinhos são criados iguais. Tradicionalmente, o vinho deveria ser feito com uvas trituradas deixadas para fermentar por um longo período de tempo, resultando em uma bebida com alto teor de álcool e rico em polifenóis. Poucos ingredientes adicionais adicionados e a intervenção mínima. Hoje, “pintar” químicos em coletes de laboratório é um retrato mais preciso da vinificação. Pasmem, mas Atualmente, mais de 70 aditivos são aprovados em vinificação para aumentar a produção, garantir resultados repetíveis e manter os custos baixos. O que mais me preocupa são os Pesticidas / herbicidas / fungicidas usados nas frutas. Por exemplo, Em um estudo de vinhos franceses , apenas 10% estavam livres de traços de pesticidas e fungicidas ( http://www.decanter.com/wine-news/french-study-finds-pesticide-residues-in-90-of-wines-21199/ ).Talvez os benefícios superem os riscos.Abraço.

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  • Constancia carvalho
    4 de outubro de 2017

    Gostaria de RESSALTAR que Muito se fala sobre o bom EFEITO do vinho na parte cardiolÓgica, mas vejo pouco ou nenhum trabalho Que observe conjuntamente coração, cérebro e fígado.

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