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Série: Avaliando a evidência – Dieta da Proteína e Diabetes

Trial: Remission of pre-diabetes to normal glucose tolerance in obese adults with high protein versus high carbohydrate diet: randomized control trial
(Fonte da pesquisa / link
BMJ Open Diabetes Research and Care 2016;4)

Saiu mais um ensaio clínico randomizado agora em pacientes com intolerância a glicose, situação que antecede o diabetes tipo 2, e medindo o efeito de dietas como intervenção. Dessa vez, para acabar com todos os preconceitos, foi utilizada uma dieta hiperprotéica versus uma com alto teor de carboidratos.

Já adianto que os resultados foram surpreendentes até para mim.

Desenho do trabalho: ECR unicêntrico, comparando o efeito de uma dieta hiperprotéica – HP  (30% proteína, 30% gordura, 40% carboidratos; n=12) versus uma dieta rica em carboidratos – HC (15% proteína, 30% gordura, 55% carboidratos; n=12) por um período de 6 meses. As dietas eram fornecidas pelos pesquisadores da Universidade do Tennessee.

Desfecho: controle da glicemia após 6 meses e outros marcadores substitutos

Risco de Viés: apesar de um n pequeno, que pode ser uma coisa interessante em estudos de dieta, porque propicia uma possibilidade de melhor controle dos pacientes (como fornecimento das refeições ao invés de usar questionários de ingesta), os pesquisadores conseguiram um bom poder estatístico de 80%. Considero um baixo risco de viés.

Conflito de interesses: não

Resultados/Impacto: houve 100% de remissão no grupo HP(isso mesmo 100%) e apenas 33,3% no HC. Além disso, o grupo de alta proteína teve resultados significativamente melhores nos desfechos: sensibilidade a insulina, fatores de risco cardiovasculares, citocinas inflamatórias, estresse oxidativo e com melhor preservação de massa magra. Visitas semanais garantiram cerca de 90% de aderência entre os grupos. Não houve aparentemente nenhum efeito negativo com as dietas.

Análise crítica: impressiona a eficácia da reversão da intolerância a glicose com uma dieta apenas 15% menos rica em carboidratos (55 x 40%). Parece a cada dia mais óbvio que o tratamento dietético é uma opção segura, eficiente e factível.

Veredito pessoal: quantos trabalhos mais serão necessários para mostrar que diabéticos não deveriam comer carboidratos em excesso? E quantas pessoas mais precisarão morrer ou sofrer as consequências desastrosas do diabetes, em função de um senso comum que insiste em oferecer quantidades absurdas de carboidratos para pacientes que têm intolerância a esse macronutriente?

Passou da hora da ciência valer mais do que esse bizarro senso comum.

COMENTÁRIOS
  • carlos zeitoune
    2 de outubro de 2017

    caro josé neto, pessoas como você têm essa missão de levar as boas (ótimas) novas (nem tanto) ao público leigo e às autoridades, tarefa que, sabemos, confronta interesses poderosos que nada tem a ver com saúde. o senso comum e as indústrias fármaco-alimentícia são de tal forma azeitadas que assumem ares de verdade, como quando falando com meus pais (hipertenso, cardiopata, renal crônico, ele, hipertensa, diabética, cardíaca, ela) que eles deveriam evitar margarinas, farinhas e açúcares em geral, e ouço a seguinte resposta: “se eu como pão, margarina, bolos há tanto tempo e estou vivo (a) é porque isso não faz mal!!” se esquecendo de que já estiveram em uti por várias vezes em função dessas doenças, vivem um vida de restrições enormes, tomam entre 8 e 10 medicamentos por dia etc.

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  • 2 de outubro de 2017

    Muito bom, Neto! Bom e conciso –> parabéns.

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  • Fernanda kroger
    19 de outubro de 2017

    Parabens pelo site! Não apenas pelo conteúdo, que é BRILHANTEMENTE exposto, mas pela iniciativa de dedicar mais um pouco do seu tempo à população. Sou fã do seu trabalho, da forma com que expões as suas opiniões e da forma com que expõe, esclarece e discorre sobre os estudos. Parabéns e muito obrigada!

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